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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

AGUEMON - Mito da Criação.


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Esta história foi retirada do Livro AGUEMON, de Carolina Cunha.

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No principio nada existia.
Existia um espaço. E os deuses habitavam o espaço.
Olodumaré, com seu oketé de búzios, reinava soberano. Tinha um filho e uma filha que estavam sempre a seu lado. Eles se chamavam Oniomon e Omobirin.
Um dia, enquanto passeavam pelo nada, Olodumaré chamou os dois e disse:
- Vocês estão crescendo, estão ficando adultos... o que vocês querem que seu pai lhes dê?
-A única coisa que eu quero é ficar sempre junto de você, meu pai - respondeu Omobirin com doçura.
Oniomon, por sua vez, perguntou curioso:
- Meu pai, está mesmo disposto a dar tudo o que eu quero?
- sim, estou - o pai falou muito tranqüilo.
- eu também não quero ficar longe de você - disse o menino - mas se você puder me puder me dar um pouquinho de terra num saco, uma conquém e uma lança, eu lhe agradeço.
- é só isso que você quer? - perguntou Olodumaré.
- é, meu pai, eu fico satisfeito - conformou Oniomon.
- e eu quero sempre acompanhar você - Omobirin repetiu, decidida.
- então estava resolvido - disse Olodumarpe, e foi providenciar o que o filho lhe havia pedido.
Oniomon recebeu radiante aqueles três presentes e, antes de seguir seu caminho, disse ao pai:
- meus passos podem me levar muito além do infinito, mas em meu coração estarei sempre perto de você.
Olodumaré abraçou o filho com alegria, depois saiu com Omobirin pelo espaço.

Assim que ficou sozinho, Oniomon começou a reparar nas coisas que carregava e pensou: “Hummm... meu pai me deu um pequeno saco, mas para o que eu quero está bom.”
E foi dali, a beira daquele espaço infinito, que ele derramou terra preta...
A terra logo começou a crescer, crescer, crescer... então ele prendeu o saquinho na cintura, pousou bem no meio da terra e soltou a conquém!

E lá foi ela ciscando e espalhando a terra preta pra todos os lados...

A terra cresceu mais ainda e a conquém não parava de ciscar...

Oniomon pisou bem forte e ficou todo contente de sentir a terra firme!
Depois, com sua lança foi marcando a terra aqui e ali...
Até que, lá pelas tantas, percebeu que ainda havia alguma coisa dentro do saco.
E quando ele viu, teve uma enorme surpresa!
Eram alguns grãozinhos que vieram junto com a terra!
Ele limpou bem aqueles grãozinhos e começou a observar que cada um era de uma cor, de um tamanho, de um formato, de uma textura.
Aí ele foi colocando um grãozinho num lugar, outro mais adiante, mais um desse lado, depois outro... e foi andando sobre a terra até distribuir todas aquelas sementes.

Mas, quando ele espremeu o saquinho pensando não haver mais nada, suas mãos ficaram molhadas!
Oniomon percebeu que dali estava saindo um liquido e, quanto mais ele espremia o saquinho, mais liquido saia.

Mais que depressa, Oniomon foi puxando o liquido misterioso por cima da terra... Ooh, Água - ele exclamou alegre.
Ele saiu caminhando, arrastando a ponta da lança no chão e a água foi rastejando atrás dele, se derramando mais ainda... seguindo o desenho que ele ia fazendo, até chegar à parte de fora da terra que está solta no espaço.
Oniomon deu uma volta completa ao redor da terra.
Então começou a observar o mundo que tinha se formado debaixo de seus pés a partir do lugar onde havia descido e a conquém tinha espalhado a terra.
Viu as marcas deixadas no chão e as sementes que tinha plantado...
Refez com os olhos atentos o caminho sinuoso das águas, e um lado a outro, até a fronteira do céu.

Aí ele molhou a pontinha do dedo na água do rio, provou e disse:
- humm... que água boa! É fresca!
Depois experimentou aquela água que estava solta no espaço:
- essa é muito diferente! Hummm... é salgada!
O menino estufou o peito, orgulhoso de tudo, e ficou feliz.

Ele passou a jogar a água doce por cima das sementinhas, e tempos depois viu que tudo brotou: árvores e plantas diferentes.
Oniomon entendeu que cada sementinha era de um tipo de arvore, de um tipo de fruta; passou a conhecer as plantas e conversar com elas. Reparou também que a conquém não parava quieta; estava sempre ali, trabalhando.
Mas a vida logo começou a ficar monótona.
Oniomon então teve a idéia de pegar bocados de terra, ir juntando e fazendo montinhos aqui e ali. Ele parava, olhava e tinha novas idéias.
Com o tempo foram surgindo muitas formas, relevos... mas ele ainda sentia que alguma coisa faltava.

Foi então que Olodumaré, do alto do seu grande espaço, decidiu chamar Aguemon, um servo muito inteligente, que estava sempre a seu lado:
- Aguemon, você que tudo vê e tudo sabe, vá à terra que dei a meu filho e veja o que ele anda fazendo. Estou sentindo que ele não está bem.
Um lindo arco-iris riscou o céu e foi por ele que Aguemon desceu até a terra.
- humm... ele criou água!
Aguemon veio escorregando pelo arco-iris, até cair dentro d’água!
Foi a maior alegria! Seu corpo ficou todo azul-esverdeado, e ele foi se deixando levar pela corrente...

Aguemon saiu da água e, à medida que andava sobre a terra, seu corpo ia ficando escuro.
- Ahh, mas que beleza! Oniomon também criou pedras! Olodumaré vai gostar de saber!

Depois Aguemon se escondeu no meio das folhas e ficou todo verde.
Seus olhos grandes iam reparando naquela enorme variedade de árvores e plantas que se estendia sobre a terra... Aguemon estava impressionado.
- quanta coisa o filho de Olodumaré plantou!
Aguemon subiu um monte bem alto, ficou todo marrom e vermelho e, quando chegou ao topo, ele disse:
- humm... eu posso ver um grande espaço... daqui posso ver muitos lugares ao mesmo tempo... posso ver rios, vales, montanhas, posso ver grandes desertos, florestas e até a imensidão do mar. Mas que engraçado, não consigo ver onde o filho de Olodumaré está!
Foi aos pés da ribanceira, quando desceu, ele encontrou o menino sentado... muito quieto e muito triste.
Aguemon já tinha visto o bastante.
Agora é hora de voltar.

Aguemon andou... andou... atravessou meio mundo, até finalmente encontrar o arco-iris, que tinha uma ponta na água doce e a outra na água salgada.
Hummm... que mergulho gostoso ele deu!
Aguemon nadava de frente, de costas, se divertia nas ondas do mar...

... e de todo jeito que ficasse, seu corpo era verde-azul-prateado!
- Que sabor diferente tem essa água!
Ele subiu até o meio do arco-íris e foi procurar Olodumaré.

- Ahh... eu vi coisas lindas!
... Aguemon ia contando tudo rápido, atropelando as palavras, os olhos se revirando, tantas eram as novidades!
- Que maravilha! Vejo que meu filho criou muitas coisas... com um simples saquinho que eu dei a ele! - Olodumaré falou, surpreso.
- Sim, mas ele está triste - disse Aguemon.
-Por quê?
- Porque ele está só - Aguemon respondeu.
- Então eu vou pedir que você volte à terra, Aguemon. Quero que leve, com muito cuidado, uma coisa preciosa que vou colocar na sua boca.
Aguemon abriu o bocão e encheu o papo.
Esperou até o outro dia e desceu novamente pelo arco-íris, dentro da água doce. Só que desta vez, estava levando um grande segredo em seu papo.

Aguemon chegou de mansinho, viu que Oniomon estava dormindo, soprou para um lado e saíram insetos.

Ele virou para o outro lado, tornou a soprar e lá se foram pelos ares milhares de pássaros diferentes e coloridos.


Por ultimo Aguemon soprou bem na direção da cabeça de Oniomon e finalmente saíram os sonhos...

Foi assim que o filho de Olodumaré sonhou pela primeira vez. Um sonho povoado de insetos e pássaros. Novos viventes que, sem ele saber, acabavam de sair da boca de Aguemon.

Aquele dia Oniomon acordou diferente e sentiu que algo havia mudado.
Começou a andar e olhar para a terra, até que percebeu uma coisa que ainda não tinha visto direito: a terra borbulhar.
Oniomon meteu a mão e sentiu o frio da água na terra... era a lama!

E com lama fez uma bola, em seguida fez um monte, aí esticou para os lados e viu uma coisa plana e comprida, e modelando a lama viu quanta coisa podia...
Depois, entre seus dedos, aquilo tudo se dissolveu...

Oniomon descobriu que a lama podia ganhar formas. Então começou a criar uma forma igual a ele. E outra igual a irmã dele.
Aguemon, que estava escondido vendo, foi embora contar tudo à Olodumaré.


Continua...

5 comentários:

Anônimo disse...

Que beleza de post, Thaís! Que venha a segunda parte!!!

Um abraço fraterno.

Unknown disse...

Olá, obrigado por ter disponibilizado essa história. Estava fazendo uma pesquisa para a minha siobrinha sobre os mitos e lendas africanos. Ela já tinha lido o livro, mas havia esquecido a história.

Unknown disse...

Obrigada por ter disponibilizado essa história. Estava fazendo uma pesquisa para minha sobrinha sobre os mitos e lendas africanos, ela já tinha lido o livro, mas esuqeceu o enredo.

Thaís Lopes Rocha disse...

Valeu Cica! pode deixar que disponibilizarei o resto da história...
Bacana mesmo é comprar o livro, pois as ilustrações são perfeitas!

Gothy disse...

que bom isso tudo! já passou da hora de só admirarmos o padrão mostrado na mídia: a mitologia européia. Cada vez mais as culturas diferentes da americana e européia (leia-se inglesa e poucas outras) está se revelando aos olhos de todo o globo.
Gosto de ver isso, não só a cultura negra se difundindo, mas também a chinesa, japonesa, indiana, arábe, coreana, francesa e tantas outras. Afinal somos todos heterogeneos em nossas origens, pra que sermos homogeneos só pq a mídia assim nos manda?!!
Viva a diversidade cultural!
Não a massificação!